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Sophie Calle cuida de você

Na caixa de entrada, um e-mail não lido. Você clica e lê sua relação desmoronando. Assim foi com a artista francesa Sophie Calle. Como tantas outras mulheres, ela recebeu um e-mail de rompimento. A diferença: fez disto arte e graça.

Como todas, Sophie não entendeu o motivo. Entre algumas razões e frases que a superestimavam, ele queria é dar um ponto final no relacionamento. Como tantos, usou a velha tática de você é boa demais pra mim. E terminou com a frase que dá nome à exposição no Brasil: Cuide de você.

Sophie queria entender a carta, destrinchar frase por frase, cada palavra, cada expressão, cada uso das aspas. Queria todas as interpretações possíveis para aquele escrito. Então, conseguiu 107 mulheres para tanto (entre “elas” uma papagaia e duas marionetes).

Na exposição, entre vídeos, fotos e interpretações por escrito, as explicações sinceras e peculiares de mulheres que poderiam ser qualquer uma de nós: uma professora, uma menina de nove anos de idade, uma criminologista, uma adolescente, algumas atrizes, uma bailarina, uma cartunista, a própria mãe de Sophie e mais um mundo feminino que pode ser visto lá no Sesc Pompeia.

Não sei se a exposição será familiar para alguns homens. Mas eu garanto que entrei e me senti em casa. Afinal, que envie o primeiro spam aquela que nunca imprimiu o e-mail de um caso qualquer para reler na cama. Ou que nunca teve que ajudar a amiga a interpretar frase por frase do e-mail recebido. Prática comum entre as mulheres, na exposição me senti apoiando Sophie. Só me fez falta um papel, para deixar também minha interpretação do caso.

Diante de tanto descaso dele, a valorização dela de cada palavra ali colocada. Quase trágico, quase cômico: exatamente como acontece na vida real. Como se cada vírgula dali tivesse um peso que, na verdade, não tem, Sophie, não tem. Ele queria um ponto final, por isso, juntou alguns pretextos. Tudo prático, por e-mail. Enviar. E ela ficou ali, na frente do computador, juntando os cacos.

Num dos vídeos, a própria Sophie lê o e-mail pra gente. Faz graça. Comenta. Em outro, uma mulher, sentada na cama, lê o e-mail impresso. Lê, relê, volta o parágrafo, sussurra, articula bem as palavras, sorri inconformada, dobra o papel e deita para dormir. A cena que provavelmente Sophie protagonizou.

(E quem nunca…?)

X Moradias: um sonho

Neste fim de semana, eu e meu companheiro de aventuras fomos conferir o X Moradias, que o Sesc SP e o Goethe-Institut São Paulo realizaram por aqui. Primeiro ele (o companheiro) comprou os ingressos. Marcado: sábado, às 17 horas, no Sesc Consolação. Como já esperávamos, recebemos crachás de identificação e um detalhado percurso para seguir pelos arredores da Consolação. Como não esperávamos, chovia e não recebemos guarda-chuva. Oito visitas pela frente, nós dois, um roteiro, uma chuva. O que esperar disto? Tudo. Ou nada. Lá fomos nós.

No primeiro apartamento, uma freira nos recebeu com mais duas ajudantes. Estava depilando o buço. Sim, tudo para fazer com que a gente se sinta exatamente dentro da intimidade de alguém que não conhecemos (mas parece que sim), que não sabemos se é real (será uma atriz?), exatamente num lugar de São Paulo por onde passamos quase todos os dias. Um lugar tão público e (agora) tão privado. A freira nos contou sua história e nos sugeriu que vestíssemos hábitos e posássemos para algumas fotos. Topamos, claro. Eu me identifiquei com a vestimenta, mas quase terminei o namoro quando olhei pro lado… Já na porta, recebemos da freirinha uma lembrancinha, um Deus te abençoe e um discreto aperto no traseiro. Interessante.

Chegamos na segunda casa. Um casarão abandonado. Uma mulher, Juliana e seu filho de, no máximo, sete anos, nos receberam. Visitamos o casarão. Várias famílias divididas em quartos. Ela nos contou que acolhe por lá quem não tem casa e que prioriza mulheres com crianças. Entramos numa sala em que, na tevê, Juliana contava sua história e citava a morte do marido no casarão. Um homem mal encarado passou pela gente. Será? Será que é real, que é ficção? Que ele foi contratado pra ficar encarando os “espectadores”? Será que a Juliana é atriz? Que o Mateus não é seu filho, mas sim um desses talentos precoces? Que o menininho calcula todos seus movimentos, que foi contratado para deixar o chinelo cair de seu pé de vinte em vinte segundos?

Chegamos na terceira casa e eu me espantei. Didi nos recebeu. Simpática, disse que o Gui tinha dito que estávamos chegando (?), que era pra ficar à vontade. Uma república. Entramos no quarto de um dos meninos. Ele estava no orkut, Didi nos contou que eles estavam escrevendo um artigo sobre Pedagogia Libertária e nos convidou para assistir a um documentário, Terráqueos. Depois de alguns minutos, outros papos e algumas pessoas a mais no quarto, entre elas uma menina grávida, Didi disse que a gente já podia ir, que o Gui não ia, que sei lá o que. Sim, eu tive a certeza de que ela ia com a gente: se preparou, nos chamou.“Talvez seja parte do percurso, passar numa casa real e andar com uma pessoa para quem tudo será supresa também…”, pensei. Em menos de dez minutos ela tinha se tornado minha amiga: vegetariana, simpática, bonita, pedagoga. Eu já cogitava a possibilidade de frequentar semanalmente aquela república repleta de adesivos pró-vegetarianismo, roupas penduradas em varais improvisados e estudantes revolucionários. Foi quando a grávida passou mal. Desespero, pânico. Didi nos expulsou. Disse que era pra gente ir, que eles iam ficar bem. Meu namorado tentou: “Posso ajudar?”. “NÃO! NÃO! Vai, vai, vai…”, berrava minha quase amiga de infância. Saímos boquiabertos. Sem chão. Uma estrutura se ergueu e foi destruída em doze minutos. Mas era tudo tão real… Olhamos no programa: era a casa em que estavam os atores do CPT. Ah, entendemos tudo. Minha casa predileta.

Uma flor, não? Conheci como Didi, mas descobri que se chama Nara Chaib Mendes: danada, me enganou direitinho!

Na quarta casa, um escritório, um homem que falava alguma língua incompreensível nos atendeu na porta. Pediu nossas identidades e entregou para um outro homem, este mascarado. Nos pediu para pegar um ovo cada um e marcar nossas digitais ali. Tudo compreendido por meio de mímicas, esforços e deduções. O mesmo homem, muito simpático, nos levou para uma sala lá atrás. Algumas instruções estavam escritas: escrever nas paredes nome, idade, e-mail, profissão, cidade etc. Quando terminamos, ele apareceu. Tinha fritado os ovos, um para cada um e trouxe um pão. Colocou a mesa, nos serviu vinho. Sentamos, comemos e conversamos numa língua comum a todos que ali estavam. Uma língua qualquer.

Quinta parada. Uma academia de boxe. Não uma qualquer: uma academia embaixo de um viaduto. Conhecida como Projeto Viver ou Cora Garrido Boxe, aulas de boxe são dadas gratuitamente ali, num lugar em que nunca alguém poderia imaginar. Um lugar que passou por transformações sociais depois desta iniciativa e que eu nem sabia existir em São Paulo. Assistimos a um trecho de um documentário e fomos para a próxima etapa.

Entramos no sexto apartamento, fomos para o quarto. Muitos copos de plástico dispostos numa mesa e no chão, todos com nomes. Uma moça dentro do quarto. Não nos dirigiu uma palavra, apontou a cama. Sentamos. “Querem água?”, perguntou. Aceitamos. Pegou dois copos, encheu de água, nos deu. Disse: “Vou contar uma história.” e deu o play no computador. Ouvimos a história de um cara. Acabou. Ela nos pediu para contar também. Contamos. Meu namorado ganhou uns dois mil pontos comigo ao contar a história de como nos conhecemos. Ela gravou. Anotou nossos nomes em pedaços de fita-crepe, colou nos copos, tirou um sarro da história que ele contou e nos dispensou.

Na sétima casa, uma instalação no andar de baixo. Projeções de uma mulher em diversas posições em cima de um sofá. Subimos. No quarto, a mesma arrumava o armário, separava as coisas do marido e os presentes recebidos: acabou o casamento de oito anos. O motivo não foi muito bem explicado. Aconselhei a tentar mais uma vez, mas ela não quis ouvir. Vai entender…

Por fim, a última parada. Uma pessoa me colocou na porta da frente da casa, um sobrado lindinho numa rua com cara de bairro, no centrão de São Paulo. A mesma pessoa orientou meu companheiro de aventuras a entrar pela porta dos fundos. Recebi um celular tocando. Juliana, denunciava o aparelho. Uma mulher com um forte sotaque falava do outro lado da linha e disse que, a partir daquele momento, aquela era a minha casa e eu era a Juliana. Então eu entrei na casa, conheci minha vida e, quando não entendia, perguntava a ela: “Tem uma revista em alemão em cima da cama. Eu leio alemão?”, “Massss ê claro, Xu! Você ê alemã!”. A Juliana original foi conduzindo meus passos enquanto o Gui, marido da Juliana, conduzia os passos do meu namorado. “Coloque o CD para tocar”, o Gui dizia. “Passe a mão no cabelo dele”, falava a Juliana. E então, neste teatro de marionetes, nos olhamos, dançamos, olhamos pela janela e o Gui e a Juliana contaram: três, dois, um. Puf. Acabou a música. Ligação encerrada. Como um sonho.

Tudo isso para dizer: o que é real, o que é inventado? Serviu para mostrar que “life is not but a dream”, como ele sempre diz. As pessoas na rua: quem monitorava nossos passos? Sim, tinha gente fazendo isso. Mas quem? Como saber? Parece um sonho. Porque é. Não é? Os atores do CPT me colocaram no universo mais real do mundo. A história que contei para a menina da água podia ter sido inventada. Ela não perguntaria. Porque já sabe: é um sonho! Este povo sempre sabe.

Não sou

Não sou tão feliz quanto pensam. Mas sou bem resolvida. E não sou infeliz! Não preciso estampar meus momentos de alegria pra todo mundo ver. Também não critico. É que não gosto. Quando tudo está muito bom, o melhor é comemorar quietinha. No máximo, dar uns gritinhos para os que me cercam. Estampar a alegria atrai… Atrai sei lá o que.

Quando eu voltava da faculdade com minhas amigas e o trânsito estava bom, tínhamos um código: a gente se olhava e ninguém podia comemorar. Incrível, bastava alguém dizer: “Nossa, hoje o trânsito tá bom, né?” e, no quarteirão seguinte, tudo estava parado. Então, ficávamos reféns do silêncio e da ausência de comemorações.

Mas chegávamos mais cedo em casa. O bom é que nos sobrava tempo para filosofarmos sobre a vida e sobre algumas besteiras também.

Não sou de comemorar.

Madonna

Do blog do Sérgio Roveri, fantástico:


“…me pergunto em que momento minha preguiça se tornou maior que meu entusiasmo. Só de imaginar o trânsito a caminho do estádio e as horas que terei de ficar em pé no gramado até que a cantora surja majestosa em seu trono, já me dá uma vontade louca de me jogar no sofá e ver quem a Flora vai matar no capítulo de hoje de A Favorita.”


Leia mais: Só no Blog: A estrela que bate ponto

Segundo turno e flanelinha

Fui votar na Soninha no segundo turno. É, ela não está mais concorrendo, mas eu votei no 23. Já que vou anular, vou me expressar pela última vez (nessas eleições) votando em quem eu acho que me representaria no poder.

Muito bem. Fui votar de carro, já que mudei de casa e não transferi meu voto para uma zona eleitoral mais próxima da minha residência. Quando cheguei na escola em que voto, parei o carro na rua. Um homem magro, de camisa preta de mangas curtas observava o movimento da rua enquanto fumava um cigarro. No seu antebraço direito, uma tatuagem: “BRANCA”.

Estranhei o fato dele estar parado por lá, mas fui em direção à escola. Me chamou de alguma coisa que não lembro. “Linda”, “querida” ou algo do tipo. “Posso dar uma olhadinha…?”. Pensei em fechar a cara. Foi quase mais forte do que eu, mas lembrei do meu carro… Tão indefeso… Ali, parado na rua. Balancei a cabeça positivamente, muito mais por medo do que por consentimento.

Lembrei da minha “candidata”. Ela disse, certa vez, em seu blog, que não costuma dar dinheiro aos flanelinhas porque acha que carro não precisa de babá. Realmente! Mas em São Paulo isso é um pouco difícil de ser seguido. Os flanelinhas são tão incisivos, chegam como se fossem realmente os donos da rua e como se fosse óbvio pagar 10 reais para estacionar num local público.

Certa vez, fiquei muito irritada com um flanelinha que me abordou na porta de um museu. Ele tirou um bolo enorme de dinheiro do bolso. Só notas de 10 e 20 e começou a contar na minha frente. “Então, a gente tá pedindo uma colaboração…”. Fiquei muito nervosa, tirei o carro dali. Fui até uma base da polícia do outro lado da rua, a menos de 50 metros do local. Falei com o polícial, expliquei a situação. Sem olhar para o meu rosto ele disse: “É assim mesmo, a gente tira eles daí, no outro dia eles voltam…”. “Então não tem nada que eu possa fazer?”. “Você quer ir até a delegacia? Vai…”. Que enguiçado esse sistema…

Pois bem. Mas o flanelinha de hoje não era incisivo. Tímido, muito tímido, inseguro. Arrisco-me a dizer que era sua primeira vez no “ofício”. Depois que votei, fiquei com medo dele me abordar no carro. Mas não aconteceu. Tímido, ele ajudava uma outra pessoa a estacionar. Me viu, mas fingiu que não. Como eu fiz. Talvez estivesse precisando de um emprego. Talvez estivesse precisando de dinheiro. Talvez… E foi tentar.
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