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Todo mundo amarela uma hora?

Desde 2004, sou fã confessa do grupo O Teatro Mágico. Assim: foi paixão à primeira vista. Conheci o grupo pela Internet e passei um bom tempo sendo fã à distância. Um dia, tomei coragem e fui assistir a uma apresentação. Foi o início de um longo trajeto como fã de carteirinha. Do tipo que chega bem antes da apresentação e só vai embora bem depois.

O grupo, que é liderado pelo querido Fernando Anitelli, conseguiu levar para os palcos uma mistura de diversas manifestações artísticas. No entanto, mais inusitada do que a proposta de reunir tanta gente diferente com o mesmo objetivo, é a bandeira da arte independente levantada com fé por Anitelli e sua trupe.

Músicas para baixar na Internet, contato direto e frequente com os fãs e um jeito acolhedor de lembrar do nome, da família, da última vez que viu e essas coisas que mostram que a mesma pessoa que estava em cima do palco, está ali, sem maquiagem ou pose, conversando com você. De igual para igual. Parece óbvio, básico, normal e até mesmo necessário para uma real admiração, mas qualquer um sabe que não é bem assim na prática das outras bandas.

Por este e por outros motivos, O Teatro Mágico ganhou destaque como mais do que uma banda: um ideal. Assim, todo mundo que conhece o grupo acaba (de uma maneira ou de outra) chegando ao debate da arte independente, da música para baixar, da liberdade do artista, da necessidade do contato direto com o público, da desmistificação do ídolo etc e tal. E quem entra em contato com o universo do grupo, chega também aos projetos paralelos dos artistas que estão n’O Teatro Mágico mas que carregam, além desta, outras bandeiras, como é o caso da “boneca do tecido”.

Gabriela Veiga, circense, bióloga, vegetariana convicta e idealizadora do projeto Hábitos e Habitat

Acontece que, na semana passada, O Teatro Mágico apareceu na novela das oito. Sim, na novela da Globo. Sim, O Teatro Mágico. E como eu vi um mar de manifestações surgindo e um Fernando Anitelli oscilando no Twitter entre explicações pacientes aos fãs e o bloqueio dos mais irritadinhos, pensei que eu tenho onde interferir nesta história.

É claro que eu não esperava menos. Aguardei ansiosamente pelo burburinho e pelas perguntas assustadas do tipo: “O Teatro Mágico se vendeu?”. Os fãs seguem mais do que uma banda e a indignação sobre a aparição na novela da Globo era esperada. E é legítima. Explico.

Há anos, os fãs frequentam os shows da trupe e, em determinado momento, ouvem um pequeno discurso exaltado do líder do projeto, falando sobre a dificuldade da divulgação do grupo, da falta de acesso à chamada “grande mídia”, do jabá pago pelas grandes gravadoras. Entre outras coisas, Anitelli não deixa de citar a alienação da televisão, como é o caso da música Xanéu no. 5 (crítica evidente ao canal no qual apareceram).

E quando falamos de novela, falamos de algo que é assistido por uma grande parte da população e que, acima de tudo, é um veículo ótimo de manutenção dos valores em voga e criação de moda. Sim, basta a mocinha (ou a vilã) usar um determinado esmalte para que este vire febre. Cintura baixa, cintura alta, preto, cinza, rosa. Tudo é ditado, essencialmente, ali. A moda do povo, o que vai vender, o que vai acontecer, o que vai tentar virar febre nos próximos nove meses.

Por isso, acho mais do que saudável que os fãs coloquem Sr. Anitelli e companhia na parede perguntando: “E aí? Qual é a de vocês?”. Primeiro, porque é a prova de que estes fãs, de alguma maneira, entenderam o recado dado nos shows. E depois porque Anitelli, que é um cara muito inteligente e coerente, interessado em arte, cultura e disposto a meter a mão na massa para que algo, de fato, ocorra neste país, tem lá suas explicações para a aparição na novela: a audiência é incrível, pela novela o grupo chegou a pessoas que não têm acesso à Internet, a trupe foi convidada etc e tal.

No entanto, acredito que o que o povo do Twitter não conseguiu dizer em 140 caracteres é: a luta de vocês foi para isso? Sim, sem dúvidas a novela deu um destaque ótimo ao grupo, mas até que ponto isto vale a pena? Durante alguns minutos na telinha da Globo, a trupe foi só mais um adereço do teatro montado pelo autor, pelo diretor e pela produção. Quem assistiu não viu O Teatro Mágico (a não ser quem conhece), mas viu, sim, um grupo de circo, com algumas músicas fazendo a reinauguração do “Restaurante do Garcia”.

Não condeno o grupo por aparecer na Globo. Não acho que ninguém ali se vendeu. Também não acredito que: “Ou é o trono ou é o inferno”, como dizia uma música que eles costumavam cantar e que um trecho está como título deste texto. Sim, a história teve pontos altos. Só não posso achar que este é um marco na história d’O Teatro Mágico. Marco, para mim, foram os shows da Virada Cultural, com milhares de pessoas cantando. Marco foram os aniversários da trupe, com outros milhares declamando poemas em uníssono, marco foram os CDs vendidos, marco é a febre do boca-a-boca.

Não posso acreditar que só teremos um outro grande marco quando, um dia, convidarem o grupo para um novo capítulo de novela. Isso, para mim, foi uma mera consequência, um reconhecimento tardio, um ponto numa história de outras tantas conquistas mais interessantes.

Três minutos no banho

Dia desses, o presidente venezuelano Hugo Chávez deu a seguinte declaração:

“Algumas pessoas cantam no chuveiro, ficam meia hora no banho. Não, meninos, três minutos é mais do que suficiente. Eu contei, três minutos, e não cheiro mal.”

A Venezuela passa por graves problemas no abastecimento de água e luz e Hugo Chávez (famoso por falar demais a ponto de levar um ¿Por qué no te callas?) se pronunciou. Aí, meio mundo fez piadinha porque, cá entre nós, três minutos de banho, presidente? Vá com seu socialismo pra lá, que fedido! Não é não?

Favor ensaboar as axilas.

Não! Segundo dados do Instituto Akatu, um banho de ducha de 10 minutos gasta, em média, 160 litros de água. Isso sem contar a energia elétrica consumida pelo chuveiro e a potência das duchas – algumas conseguem gastar muitos mais litros de água por minuto! Aí, meu amigo, 10 minutinhos desperdiçados ensaboando as pernocas equivalem a bem menos água no planeta. E convenhamos que 10 minutos é o tempo inicial do banho de muita gente que conheço.

Mas eu sei. Você não consegue. Você é muito alto, gordo, forte, lerdo, cabeludo e estressado e precisa de todos estes minutos para dar conta do corpitcho e desestressar. Pois bem. Eu não sou das mais altas, gordas, fortes, lerdas e estressadas mas sou cabeluda e afirmo que banho pode ser rápido sim senhor.

Hugo Chávez tem razão: eu também já contei e tomo banho sem problemas em três minutos. Geralmente, gasto até cinco minutos. E, quando lavo a juba, lá se vão uns oito. Mas se você quer mais incentivos para parar de se ensaboar, lembre-se: sabonete resseca a pele. Desligue o chuveiro e teste a acústica do banheiro cantando Sandy e Junior enquanto passa um hidratante.

Agora se você está preocupado com a água, o planeta e a conta do fim do mês, mas não consegue se controlar, compre um Eco Showerdrop e se desespere assistindo à desgraça durante o banho.

Eco Showerdrop

Este aparelhinho vai te conscientizar minuto a minuto informando o tempo no banho, a água gasta e ainda pode ser programado para te alertar quando chegar a hora de fechar o chuveiro.

Sem desculpas agora, hein?

A teoria da sucata

Se tem uma coisa que muito me irrita em educação (e que me faz querer enfiar a cabeça no primeiro buraco que vejo quando penso que estudei tanto isso) é a reutilização de sucata para tudo. Praticamente toda professora tem o cantinho da sucata em sua sala. Cento e trinta garrafas de plástico, mil e duzentas tampinhas de refrigerante, oitenta caixas de lenço etc. Confesso que algumas destas coisas, como garrafas cortadas ao meio, são bem úteis na hora de, por exemplo, separar tintas, lápis, borrachas e fazer alguma coisa pontual. Agora, não me venham com aquele monte de trabalho com sucata. Vou explicar o motivo.

Como todos, tenho cá também minhas teorias. E uma delas é a teoria da sucata. Sucata, na minha humilde opinião, serve para ser reciclada. Óbvio, vamos cooperar com o planeta, minha gente, isso aí, vamos lá. Acontece que as(os) pedagogas(os) e as(os)
nem tanto assim pegaram o bonde andando e entenderam que é pra fazer tudo de sucata. Todos os trabalhos ganham um brilhozinho especial para pais, professores e desentendidos quando utilizam, de qualquer forma, a palavra sucata. E aí? Sim, esse bando de nem tanto assim, faz aquela cara pra você de que fazer trabalho com sucata é Ó-TI-MO e você TEM que fazer. Aham.

O que acontece na prática é que um trabalho super legal que poderia ter sentido para as crianças, como um jogo da memória de tal coisa, acaba ganhando ares de ecologicamente correto só porque uma tonta de uma auxiliar (oi, tudo bem?) ficou três dias embrulhando caixas de lenço com papel kraft.

Tudo o que poderia ter sido construído com as crianças, uma coisa muito mais simples e muito mais elaborada intelectualmente, acaba virando um trabalho burocrático, alienante e braçal de uma tonta de uma auxiliar (oi, tudo bem?) que gastou uma montanha de papel kraft para embrulhar as caixas. Ecológico, não?

Sim, eles gostaram do resultado. Mas será que gostaram das caixas de lenço embrulhadas ou do jogo da memória?

A mensagem que temos que passar para pais, alunos, pedagogos, pedagogas e nem tanto assim é: reciclar. Utilizar sucata sensatamente. Vamos fazer com que uma garrafa de refrigerante continue sendo uma garrafa de refrigerante e não vire uma pantufa horrorosa e desconfortável que a criança (por conforto e bom senso) nunca vai usar. E que vai direto para a lixeira (comum!).

PS: É claro que tem gente que faz trabalhos lindos e interessantíssimos com sucata. E é claro que tem gente fazendo coisa muito legal na educação infantil… Com sucata! Mas recomendo cuidado com os exageros e com as máscaras…

Sobre cães, vacas e homens

Um cachorro apareceu na rua da casa de uma amiga. Como ele é de uma raça dita perigosa, não pode ficar por lá. O Centro de Controle de Zoonoses (a Carrocinha, diga-se de passagem) foi chamado e minha amiga, para proteger o cão, assumiu a responsabilidade por ele. Tem que encontrar um dono para ele o mais rápido possível e, enquanto não encontra, o mantém em sua clínica. Todos os dias vai lá e eles se fazem companhia. No fim da tarde, o tranca na clínica, com dor no coração, diz boa noite e se vai.


O fato é: ela chorou conversando comigo dia desses. Chorou porque o cão é fofo, lindo, meigo, quer um dono, quer ser feliz, não merece ser levado pela Carrocinha, não merece ter sua vida interrompida. Certo, concordo. Uma iniciativa do governo de castrar os cães que já estão por aí abandonados talvez melhore a situação. Talvez a carrocinha possa, um dia, com planejamento e vontade, deixar de existir.


É ruim ver um cão abandonado. Mas, posso parecer ridícula aqui, como muitos acharão: por que chorar por um cão desconhecido e não pela vaca no prato do almoço? Qual a diferença entre este cão abandonado e o porco que espera no corredor de sua morte? Ou os bezerros que são torturados e abatidos friamente? E os outros tantos animais?


O cão ao menos está seguro, protegido, vacinado, à procura de uma casa. Já estes outros animais estão nas prateleiras do supermercado, ao molho madeira. Choram por uns. E os outros? Por que não choram pelos outros?

Amam cachorros, gatos, papagaios, coelhos, cavalos. Não suportam ver um bichinho dormir fora de casa. Odeiam presenciar um sofrimento na rua. Mas não ligam para a crueldade dos abatedouros. Não dispensam um churrasco. Acham radical parar de comer carne. Não querem assistir ao vídeo
A Carne É Fraca porque não suportam ver “o sofrimento dos bichinhos”. Não suportam ver, suportam comer. “É a lei da natureza, a cadeia alimentar”, afirmam, convictos.


E ainda existem os que apelam e, na tentativa de aproximar o vegetarianismo à futilidade, nos fazem parecer tolos, perguntando: “Mas e as criancinhas da África que passam fome?”. Ok. Algo tem que ser feito. Na África, no sertão nordestino e até mais perto, nos semáforos de São Paulo… E no nosso prato. Na nossa consciência.


Basta pesquisar um pouco sobre as diversas explorações animais para achar a Carrocinha fichinha. Para até entender mais a África. Basta um tempo lendo sobre o problema do consumo da carne no mundo para perceber como somos incoerentes. Somos, sim, todos. Somos frutos de uma herança cultural que utiliza animais como produtos. Está na capa do produto: uma ave sorrindo, a vaquinha gordinha, lambendo os beiços.


Então tomamos leite. Somos amamentados por vacas que são induzidas a estarem sempre prenhas para que a produção aumente. Comemos uns, nos vestimos de outros. Com alguns brincamos e, por estes, nos permitimos sentir afeto. Ninguém mata o próprio cão para o churrasco do domingo. Por este, você chora.


É só abrir os olhos. Somos todos iguais, habitantes do mesmo planeta. Com a diferença de que nós podemos fazer escolhas. Agora, se você não quer admitir nossas semelhanças com eles todos, admita, ao menos: eles são todos iguais.