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A teoria da sucata
Se tem uma coisa que muito me irrita em educação (e que me faz querer enfiar a cabeça no primeiro buraco que vejo quando penso que estudei tanto isso) é a reutilização de sucata para tudo. Praticamente toda professora tem o cantinho da sucata em sua sala. Cento e trinta garrafas de plástico, mil e duzentas tampinhas de refrigerante, oitenta caixas de lenço etc. Confesso que algumas destas coisas, como garrafas cortadas ao meio, são bem úteis na hora de, por exemplo, separar tintas, lápis, borrachas e fazer alguma coisa pontual. Agora, não me venham com aquele monte de trabalho com sucata. Vou explicar o motivo.
Como todos, tenho cá também minhas teorias. E uma delas é a teoria da sucata. Sucata, na minha humilde opinião, serve para ser reciclada. Óbvio, vamos cooperar com o planeta, minha gente, isso aí, vamos lá. Acontece que as(os) pedagogas(os) e as(os) nem tanto assim pegaram o bonde andando e entenderam que é pra fazer tudo de sucata. Todos os trabalhos ganham um brilhozinho especial para pais, professores e desentendidos quando utilizam, de qualquer forma, a palavra sucata. E aí? Sim, esse bando de nem tanto assim, faz aquela cara pra você de que fazer trabalho com sucata é Ó-TI-MO e você TEM que fazer. Aham.
O que acontece na prática é que um trabalho super legal que poderia ter sentido para as crianças, como um jogo da memória de tal coisa, acaba ganhando ares de ecologicamente correto só porque uma tonta de uma auxiliar (oi, tudo bem?) ficou três dias embrulhando caixas de lenço com papel kraft.
Tudo o que poderia ter sido construído com as crianças, uma coisa muito mais simples e muito mais elaborada intelectualmente, acaba virando um trabalho burocrático, alienante e braçal de uma tonta de uma auxiliar (oi, tudo bem?) que gastou uma montanha de papel kraft para embrulhar as caixas. Ecológico, não?


Sim, eles gostaram do resultado. Mas será que gostaram das caixas de lenço embrulhadas ou do jogo da memória?
A mensagem que temos que passar para pais, alunos, pedagogos, pedagogas e nem tanto assim é: reciclar. Utilizar sucata sensatamente. Vamos fazer com que uma garrafa de refrigerante continue sendo uma garrafa de refrigerante e não vire uma pantufa horrorosa e desconfortável que a criança (por conforto e bom senso) nunca vai usar. E que vai direto para a lixeira (comum!).
PS: É claro que tem gente que faz trabalhos lindos e interessantíssimos com sucata. E é claro que tem gente fazendo coisa muito legal na educação infantil… Com sucata! Mas recomendo cuidado com os exageros e com as máscaras…
Sobre cães, vacas e homens
Um cachorro apareceu na rua da casa de uma amiga. Como ele é de uma raça dita perigosa, não pode ficar por lá. O Centro de Controle de Zoonoses (a Carrocinha, diga-se de passagem) foi chamado e minha amiga, para proteger o cão, assumiu a responsabilidade por ele. Tem que encontrar um dono para ele o mais rápido possível e, enquanto não encontra, o mantém em sua clínica. Todos os dias vai lá e eles se fazem companhia. No fim da tarde, o tranca na clínica, com dor no coração, diz boa noite e se vai.
O fato é: ela chorou conversando comigo dia desses. Chorou porque o cão é fofo, lindo, meigo, quer um dono, quer ser feliz, não merece ser levado pela Carrocinha, não merece ter sua vida interrompida. Certo, concordo. Uma iniciativa do governo de castrar os cães que já estão por aí abandonados talvez melhore a situação. Talvez a carrocinha possa, um dia, com planejamento e vontade, deixar de existir.
É ruim ver um cão abandonado. Mas, posso parecer ridícula aqui, como muitos acharão: por que chorar por um cão desconhecido e não pela vaca no prato do almoço? Qual a diferença entre este cão abandonado e o porco que espera no corredor de sua morte? Ou os bezerros que são torturados e abatidos friamente? E os outros tantos animais?
O cão ao menos está seguro, protegido, vacinado, à procura de uma casa. Já estes outros animais estão nas prateleiras do supermercado, ao molho madeira. Choram por uns. E os outros? Por que não choram pelos outros?
Amam cachorros, gatos, papagaios, coelhos, cavalos. Não suportam ver um bichinho dormir fora de casa. Odeiam presenciar um sofrimento na rua. Mas não ligam para a crueldade dos abatedouros. Não dispensam um churrasco. Acham radical parar de comer carne. Não querem assistir ao vídeo A Carne É Fraca porque não suportam ver “o sofrimento dos bichinhos”. Não suportam ver, suportam comer. “É a lei da natureza, a cadeia alimentar”, afirmam, convictos.
E ainda existem os que apelam e, na tentativa de aproximar o vegetarianismo à futilidade, nos fazem parecer tolos, perguntando: “Mas e as criancinhas da África que passam fome?”. Ok. Algo tem que ser feito. Na África, no sertão nordestino e até mais perto, nos semáforos de São Paulo… E no nosso prato. Na nossa consciência.
Basta pesquisar um pouco sobre as diversas explorações animais para achar a Carrocinha fichinha. Para até entender mais a África. Basta um tempo lendo sobre o problema do consumo da carne no mundo para perceber como somos incoerentes. Somos, sim, todos. Somos frutos de uma herança cultural que utiliza animais como produtos. Está na capa do produto: uma ave sorrindo, a vaquinha gordinha, lambendo os beiços.
Então tomamos leite. Somos amamentados por vacas que são induzidas a estarem sempre prenhas para que a produção aumente. Comemos uns, nos vestimos de outros. Com alguns brincamos e, por estes, nos permitimos sentir afeto. Ninguém mata o próprio cão para o churrasco do domingo. Por este, você chora.
É só abrir os olhos. Somos todos iguais, habitantes do mesmo planeta. Com a diferença de que nós podemos fazer escolhas. Agora, se você não quer admitir nossas semelhanças com eles todos, admita, ao menos: eles são todos iguais.


