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O trágico da existência estudantil

Ando ocupada com os afazeres da minha monografia. Não que eu esteja muito atarefada. Ou estou? De fato, estou, mas escrevi muito pouco ainda. O que acontece é que quando não estou escrevendo para a monografia, penso que deveria estar escrevendo para a monografia, aí não consigo escrever nada, porque, ora, se for para escrever, Isabella, que seja para a monografia.

Não que eu esteja estagnada. Até me surpreendi com o quanto consegui evoluir dia desses. Depois de ler umas mil páginas, consegui elaborar um raciocínio: primeiro falo disso, depois disso, depois daquilo. Vocês sabem, esta é a maior dificuldade: reconhecer que há algo a escrever sobre o tema – as pessoas escrevem muito, escrevem difícil, já escreveram tudo!

Outro ponto é conseguir se liberar do certo e do errado. Estou aqui escrevendo o que acho que Snyders quis dizer da felicidade na universidade, o que entendi que Schön falou sobre o que é ser um professor reflexivo, o que compreendi do que Iavelberg disse da importância de simular a prática na formação do arte-educador.

Meu medo é estabelecer verdades, verdades, verdades e de repente pensar que… Não era nada disso. Ela quis dizer justamente o contrário, Snyders foi irônico quando disse aquilo e Schön, ahhh, Schön é um bocó (vai me dizer que você não sabia?).

Pelo direito de estamparmos esta frase nos nossos trabalhos acadêmicos

É claro que é mentira: Schön não é considerado um bocó (muito pelo contrário, me parece, hein?), Iavelberg quis dizer aquilo mesmo e Snyders não foi irônico nada. Eu acho.

Aliás, é de Snyders a melhor definição desta angústia estudantil que nos assola. Este sentimento que nos atordoa, este não saber se conseguiremos chegar ao saber, se um dia estaremos perto de contribuir minimamente como contribuíram os grandes pensadores que admiramos. Esta incerteza do sentido dos estudos, este limbo entre me achar com uma pretensa sabedoria e me resignar como medíocre.

Essas dúvidas todas que nos afligem, são parte desta angústia, do que Georges Snyders chama de o trágico da existência estudantil.

Ou você ainda acha que terá tempo de ler todos os livros que queria?

Apenas um jovem: João Felipe Scarpelini

“Prezados senhores, meu nome é João Felipe, tenho treze anos e quero mudar o mundo. Você pode me ajudar?”

Foi em novembro do ano passado, num auditório flutuante de um Rio Negro quase seco, que ouvi a história de João Felipe Scarpelini. Na iminência de um país (e de um planeta) em sufoco, precisando ser mudado.

Não sou emotiva o suficiente para chorar em palestras. Mas a dele foi a que mais me tocou em todo o TEDxAmazonia. Ele queria mudar o mundo. Ele só tinha treze anos.

Foi aquela frase do início o email que ele enviou para mais de cem instituições. Grandes, pequenas, todas com o discurso da importância do jovem. Alguma tinha que retorná-lo.

De fato, retornaram: cinco. Algumas sugerindo que ele colaborasse com dinheiro, outras dizendo que ele ainda era muito jovem para isso.

Eu tenho a mesma idade que ele. De certo modo, tivemos as mesmas inquietações. Mas para João Felipe foi diferente. Aquilo bateu nele. Ele sentiu que precisava agir. Ele sabia que podia.

Passou a organizar debates na escola em que estudava: chamava jovens que estavam mudando o mundo para contarem de suas experiências. Fomentava a ideia de que era possível.

Ele foi o aluno que toda escola quer ter: engajado, participativo, envolvido, protagonista de um projeto, de uma história. Ou deveria querer.

A principal dificuldade dele foi, justamente, com seus professores, que insistiam que ele deveria deixar a bagunça de lado e se focar no vestibular. No ensino formal. Tão sólido, tão careta. Tão cego, às vezes.

Foi isso que João Felipe fez, mas foi isso também que não durou: largou a faculdade de Relações Internacionais logo no início. E foi para a Inglaterra colocar a mão na massa: trabalhar numa organização, com jovens de diferentes lugares do mundo.

“Da noite pro dia eu deixei de ser o jovenzinho bonitinho que queria fazer alguma coisa e passei a ser tratado com um profissional especializado em juventude.”

Hoje, com 25 anos, ele é consultor em questões de juventude da ONU-HABITAT (Organização das Nações Unidas para Assentamentos Humanos). Trabalha ouvindo jovens, dando voz a eles e ajudando-os a conseguirem direitos, responsabilidades e os mesmos critérios que os adultos.

“A gente não quer tratamento especial, a gente quer ser igual.”

Depois de já ter passado por 42 países, em mais de 400 projetos, ele diz que não luta pelo protagonismo juvenil, mas sim pelo empoderamento do jovem. Busca igualdade no tratamento de jovens e adultos, trabalho conjunto. Não pensa em baixar critérios para trabalhar com eles: sabe que são (somos) capazes de muito mais.

“Somos três bilhões de jovens no mundo. Acho que fica claro que falar pro jovem que ele é muito novo para fazer a diferença, tinha que ser um crime.”

Num planeta pedindo socorro, com tantos problemas e tão pouco tempo que temos por aqui, ignorar o trabalho e as ideias de tanta gente querendo ajudar é triste. E foi o que fizemos com João Felipe quando ele queria fazer a diferença.

É espantoso o fato de João Felipe precisar sair do país para ser reconhecido aqui, para ser valorizado. Hoje o Brasil o vê como um especialista em juventude. Mas porque ele foi validado pelo mundo.

Uma tristeza que nosso sistema educacional ainda esteja tão engessado. Formamos (na verdade, nem bem formamos) para o ingresso na universidade. Como se este fosse o único caminho. Como se fosse a solução.

Ver João Felipe fazendo a diferença é um alívio, um sopro de esperança. Uma inspiração.

PS: E se você também se apaixonou pela história dele, sugiro que assista ao bate-papo que o pessoal do CEBB (Centro de Estudos Budistas Bodisatvas) fez com ele no final do ano passado. Foi lá que tive a oportunidade de dar um abraço neste cara grandão e de bom coração que poderia ser meu colega de sala. E é meu novo ídolo.

Banalização da educação: da creche ao doutorado

Que a educação no Brasil não anda lá grandes coisas todo mundo sabe.

Não sei se é de hoje, de ontem ou um reflexo dos tempos. Há diversas teorias sobre e isso merece capítulos e capítulos de um livro que envolveria falta de estrutura nas escolas, desvalorização do trabalho docente, grande expansão do ensino sem o investimento necessário etc.

Foi lá em 2004 que eu comecei a cursar Pedagogia buscando entender esta e outras questões e é agora que eu venho demonstrar aqui uma partícula disso tudo. Afinal, se as escolas não conseguem ensinar, de todos os fatores apresentados aqui em cima, preciso contar um pouco do que ando vivenciando.

"Educação é a mais poderosa arma"

No início deste ano caiu no meu colo a pós-graduação dos sonhos: “Linguagens das Artes”. Além de ser oferecida pela USP e coordenada por Rosa Iavelberg (renomada professora da Faculdade de Educação da USP e intimamente ligada às artes), ainda encontrei o curso a tempo de me inscrever para a prova de seleção. Em cima da hora, mas a tempo.

Uma pós-graduação lato sensu na melhor universidade do país, com uma pessoa competente à frente e professores especialistas em arte e educação. O que poderia dar errado?

Nada. No entanto, até agora estou esperando pelo início do curso. De todos os módulos que tive durante este ano, posso dizer que aprendi alguma coisa com dois. Dois. Dois de mais de uma dezena.

E, ora, como eu poderia imaginar? O curso só tem indicações positivas. Professores de diversas faculdades da USP, muito experientes, plano bem estruturado, linguagens das artes contempladas no currículo. Na teoria, tudo parece correr bem. Na prática, a maioria dos professores tende a dar aulas em forma de oficina (que, sem a teoria, fica vazia e tola) ou excessivamente teóricas e sem correlação com a prática e com a proposta do curso.

A situação é cômoda, confesso: as aulas são ruins, a grande maioria beira o embromation. Os professores alegam que são poucas aulas para um assunto tão vasto, que deste jeito não conseguem aprofundar o tema etc. E já que não conseguem aprofundar, praticamente nem nos iniciam. Nos tratam como crianças em oficinas destinadas a esse público, nos enchem de jogos teatrais, livres expressões de dança, de música… Certamente oficinas que fazem sentido e são esclarecedoras depois de um embasamento na teoria. Depois de leitura. Reflexão. Caminhos. Propostas.

O curso faz o que faculdades e cursos de extensão costumam fazer com profissionais da área de Humanas (especialmente com pedagogos e envolvidos na profissão tão desvalorizada de professor): misturam oficina com auto-ajuda, fingem entrar na formação cultural do professor e trabalhar muito profundamente, mas são tão rasos, tão subjetivos e tão superficiais que enganam, no máximo, Gabriel Chalita.

"Ei, você, venha fazer pós-graduação com a gente!"

“Linguagens das artes”, esta pós-graduação tão promissora, talvez nada mais seja do que um reflexo, em outras proporções, desta educação que, como eu dizia no início do texto, já não anda grandes coisas.

Parece não haver por lá falta de estrutura ou de investimento, tampouco desvalorização do docente. Talvez o maior problema deste curso seja a falta de comunicação entre alunos e professores, coordenadores e professores, coordenadores e alunos, teoria e prática, currículo e vivência.

Frase adaptada de Gilberto Freyre, pichada nos muros da FEUSP

São apenas mais seis meses, uma monografia e eu posso me considerar uma arte-educadora sem nunca ter entrado em sala de aula numa discussão sobre conceito de arte. Sobre ONGs. Sobre atuação do arte-educador. Sem quase nunca ter tido discussões em cima de livros importantes, de autores de referência. Sem saber onde procurar para tratar de dança, de música, de teatro. Sem base para a prática. Para o fim social.

Entendo porque falamos tanto em avaliação em educação. Entendo porque tentamos seguir os passos do que deu certo, voltar a todo instante para pensar onde melhorar. Porque sem ligação, sem entendimento, sem coerência, tudo vira uma grande oficina sem propósito.

E talvez o grande problema disso tudo seja mesmo a falta de propósitos. Da creche ao doutorado. Pois a educação não anda grandes coisas na escola porque, anotem, a educação não anda grandes coisas para os educadores.

No elevador

De onde você não pode sair quando bem entende

Dia desses, trabalhei até mais tarde. Eu e minha colega colocamos em ordem tudo o que não conseguíamos organizar há tempos. Era um tal de colocar caixa acima, caixa abaixo, separar uma coisa, organizar outra etc e tal.

Lá pelas oito e meia da noite, já era de se esperar que tanto eu quanto ela não estávamos as mais belas criaturas deste mundo, não é mesmo? Pois bem, famintas e acabadas, juntamos nossas trouxinhas e nos despedimos de nossa sala. Rumo ao elevador, a filha dela de três anos de idade (que estava com a gente) iniciou um pequeno escândalo.

Um show particular que estava até mesmo engraçado para nós duas: aquele pequeno ser gritava porque não queria ir embora. Sim, a criança estava caindo de sono e continuava insistindo: quero ficar aqui, quero chocolate, quero brincar. Nós três ali, em frente ao elevador, no fundo sabíamos que o que ela queria mesmo era dormir. Mas criança é uma coisa tão engraçada – quase tanto quanto mulher: nunca diz exatamente o que quer. Nem sequer sabe, acredito.

Enquanto eu via a criança se contorcendo nos braços da minha colega, pensei em quantas vezes passamos por isso. Tarefa rotineira para a gente: lidar com birra de criança. No entanto, aquela era uma birra diferente, era muito mais poderosa. Afinal, o pequeno ser ali sabia com quem estava lidando: sua mãe, no ambiente de trabalho e em frente a uma colega.

Muito bem, o elevador chegou e o que mais pode acontecer num dia destes, não é? Quem mais está no prédio a esta hora? Nossa coordenadora já tinha ido embora, assim como nossa diretora. Ninguém mais no andar e era de se esperar que ninguém mais também no elevador, certo?

Errado. Quando você está descabelada, com olheiras, faminta e com uma criança ao seu lado que intercala birras para a mãe e para você, Murphy faz questão de oferecer ao universo duas opções: mande até lá o único sujeito altamente interessante do pedaço ou…

Ou mande imediatamente o chefe dela. Sim, não era minha coordenadora ou minha diretora: quem estava no elevador era o chefe da minha chefe, o diretor, o big boss, o mais mais mais, que eu só vi algumas vezes na vida e que ainda nem sabe meu nome.

Sim, no único dia do ano em que meu crachá já estava na bolsa, bato o olho no crachá dele e confirmo: “É ele!”. Claro que é ele, Isabella! E logo depois concluo: “Se ele está com o crachá até agora, quem soy yo para estar com o meu na bolsa?”.

Sorrimos, “Boa noite!” e ele, muito simpático e atencioso, tentou brincar com a birra dela. Mas é claro que ela, como boa criança que é, demonstrou mais insatisfação ainda, ignorando as palavras dele e não deixando espaço para a mãe completar: “Ela está cansada…”.

Nunca dois andares demoraram tanto para passar. Nunca uma criança gritou tanto neste breve intervalo. Chegamos na garagem e nos despedimos dele. Fechamos a porta do elevador e minha amiga colocou a filha no chão e simulou um carinhoso chute em seu pequeno traseiro.

E saímos morrendo de rir, com a missão de levar a lição para casa: dentro daquele elevador, a hierarquia estacionou. Por alguns segundos, a criança foi mais importante que o diretor e ele entendeu o direito dela. E quem disse que não entenderia?

Inteligência, bom senso e carisma para lidar com estas situações. Os dois estavam à vontade. Quem sobrou patinando no sabão por lá fomos só eu e minha colega. Patéticas.

Na cabeça ou na mochila

Quando você para de conviver diariamente com crianças, passa a ter menos coisas engraçadas para contar. Mas de uma história eu não me esqueço.

No ano passado, dei aula para crianças de quatro anos de idade. Metade do ano fui estagiotária professora auxiliar e na outra metade peguei a bomba assumi a sala.

Todos os dias, as crianças chegavam na sala de aula e tiravam da mala a agenda, o copo (com a escova de dente dentro) e penduravam a lancheira.

Em um dia frio, um dos meus alunos, Arthur, chegou todo encapotado e com um gorro na cabeça. Arrumou seus pertences e, no meio da brincadeira com os amigos, tirou o gorro e o colocou na mesa, ao lado do seu copo com sua escova de dente.

Arthur e o Bidu de massinha

Caro leitor, aqui faço uma pausa para um comentário: se você nunca viveu um dia na educação infantil, não sabe o que é administrar uma sala com 17 crianças de quatro anos de idade. Não imagina o que é rezar diariamente para uma convivência pacífica. Para ninguém chutar, morder, bater, arranhar e para ninguém retrucar. E também nunca se viu pedindo aos céus para que todos consigam controlar seus esfincteres até a chegada ao banheiro. Se você tem filhos, sabe do que estou falando. Agora multiplique por 17. Tranque numa sala. E jogue uma louca dentro. Por isso e por otras cositas más eu passei o ano passado inteiro descabelada.

Pois bem, tudo isto para dizer que, muitas vezes, no calor da coisa, esquecemos que são crianças. E que sempre têm uma visão peculiar. E que são criativas, inocentes e obedientes até. Teoricamente, nós, pedagogos, estudamos para (entre muitas outras coisas) aprender a lidar com as peculiaridades do ensino. Mas é que com dois pendurados no lustre, três correndo ao seu redor, um com febre, uma puxando o cabelo da outra e cinco formando uma quadrilha de tráfico de batom da Xuxa, fica realmente muito difícil. Você esquece até que é gente.

Então, ali estava eu, jogada no meio da muvuca, quando a professora que trabalhava comigo, ao sair da sala, viu o gorro do Arthur ao lado do copo da escova de dente dele. Apontando para a mesa, disse: “Arthur, coloca na cabeça ou guarda na mochila!”. Saiu da sala e eu fiquei por lá, tentando administrar a galera.

Depois de alguns minutos, olho para o lado e vejo o Arthur segurando o copo (com a escova de dente dentro) em cima da cabeça.


– Arthur, o que foi?

– A professora disse pra eu colocar na cabeça ou guardar na mochila, mas eu ainda não escovei os dentes…

– O gorro, Arthur!

– Ah…

E ele fez a cara que eu mais queria ter registrado na minha vida. Uma mistura de “entendi” com “envergonhei”. Arthur um menino tão carinhoso e tão esperto, me mostrou que, realmente, é tão simples e tão complexa essa terra de gigantes.